From: Subject: OI - Perto de mil africanos assistidos por ano em Portugal Date: Tue, 2 Dec 2008 19:49:19 +0100 MIME-Version: 1.0 Content-Type: multipart/related; type="text/html"; boundary="----=_NextPart_000_001E_01C954B7.10DB0FB0" X-MimeOLE: Produced By Microsoft MimeOLE V6.00.2900.2180 This is a multi-part message in MIME format. ------=_NextPart_000_001E_01C954B7.10DB0FB0 Content-Type: text/html; charset="iso-8859-1" Content-Transfer-Encoding: quoted-printable Content-Location: http://www.oi.acime.gov.pt/modules.php?name=News&file=print&sid=786 OI - Perto de mil africanos assistidos por ano em = Portugal
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Perto de = mil africanos=20 assistidos por ano em Portugal
Data: 02-12-2005
Tema:=20 Not=EDcia

Por Ricardo Dias Felner
30 de = Novembro de=20 2005, P=FAblico


Os=20 acordos de coopera=E7=E3o na =E1rea da sa=FAde entre = Portugal e os=20 pa=EDses africanos de l=EDngua oficial portuguesa = (PALOP) foram=20 quase todos celebrados at=E9 1985 e representam = anualmente mais=20 de um milhar de doentes estrangeiros assistidos no = Servi=E7o=20 Nacional de Sa=FAde.

De acordo com os diplomas = assinados com=20 cada um dos pa=EDses africanos, Angola pode transferir = por ano=20 at=E9 200 doentes, Cabo Verde e Guin=E9-Bissau 300, S. = Tom=E9 e=20 Pr=EDncipe 200 e Mo=E7ambique 50. Estes n=FAmeros, no = entanto, n=E3o=20 s=E3o cumpridos =E0 risca, sendo na maior parte dos = anos=20 ultrapassada a tabela. Dados da Direc=E7=E3o-Geral da = Sa=FAde=20 revelam, por exemplo, que no ano 2000 foram = transferidos de S.=20 Tom=E9 e Pr=EDncipe 300 doentes, n=FAmero que em 2002 = atingiu o=20 recorde de 367.

No que respeita em particular = =E0=20 situa=E7=E3o dos doentes cabo-verdianos, a grande = maioria das=20 pessoas sujeitas a tratamentos cont=EDnuos s=E3o = v=EDtimas de=20 doen=E7as do foro oncol=F3gico (em particular cancro = do =FAtero e da=20 mama) ou s=E3o doentes renais cr=F3nicos. Eduardo = Silva, o=20 respons=E1vel diplom=E1tico da embaixada de Cabo Verde = em Lisboa,=20 disse ao P=DABLICO que neste momento estar=E3o = hospitalizados=20 cerca de 45 pacientes com insufici=EAncia renal, perto = de 80 com=20 cancro e cerca de 25 com problemas variados, = nomeadamente na=20 =E1rea da cardiologia e da neurologia.

Em conformidade com o acordo = de=20 coopera=E7=E3o com os PALOP, Portugal compromete-se a = prestar=20 assist=EAncia m=E9dica hospitalar (internamento, = semi-internamento=20 e ambulat=F3rio), a fornecer meios complementares de = diagn=F3stico=20 e terap=EAutica e a transportar de ambul=E2ncia, do = aeroporto para=20 hospital, os doentes em condi=E7=F5es que assim o = exijam.=20

Os governos dos PALOP = financiam o=20 transporte para Portugal e o regresso; = responsabilizam-se pela=20 desloca=E7=E3o do aeroporto ao local de resid=EAncia; = propiciam o=20 alojamento a doentes n=E3o internados, antes, durante = e ap=F3s o=20 tratamento ter sido conclu=EDdo; financiam = medicamentos e=20 pr=F3teses, bem como o funeral ou repatriamento do = corpo em caso=20 de morte. Quanto ao alojamento, contudo, nem todos os=20 pacientes ficam em pens=F5es arrendadas pelas = embaixadas. O=20 encarregado de neg=F3cios da embaixada de Cabo Verde = em Lisboa=20 indicou, por exemplo, que apenas 40 dos 150 doentes = presentes=20 actualmente em Portugal est=E3o a cargo da embaixada.=20

Doentes graves, africanos, = depositados em=20 pens=F5es obscuras

Os doentes dos PALOP = com cancro,=20 insufici=EAncia renal e outros diagn=F3sticos graves, = transferidos=20 para Portugal ao abrigo de acordos de sa=FAde, s=E3o = instalados em=20 apartamentos repletos de baratas e ratos, sem = quaisquer=20 condi=E7=F5es de seguran=E7a e conforto. Muitos deles = marcados pela=20 morte prematuramente, v=EAem-se abandonados nos seus = quartos=20 imundos, h=FAmidos e escuros, longe do seu pa=EDs, = longe de=20 Portugal, longe da vida. A embaixada de Cabo Verde,=20 respons=E1vel por mais de 90 por cento destes = alojamentos,=20 admite a situa=E7=E3o, mas lamenta n=E3o ter meios = financeiros para=20 propiciar melhores condi=E7=F5es. "A escolha =E9 = dram=E1tica", afirma=20 o respons=E1vel diplom=E1tico em Lisboa. "Ou tentamos = que estas=20 pessoas se curem, passando por este supl=EDcio, ou = deixamo-las=20 morrer em Cabo Verde."

Do pr=E9dio antigo = sai uma mulher=20 magra, pele muito escura, um roup=E3o por cima do = casaco de fato=20 de treino. Durante alguns minutos permanece parada na = soleira=20 da porta, engolindo o iogurte que traz consigo, = observando o=20 frenesim de gente deambulando pelo com=E9rcio = tradicional do=20 bairro lisboeta de Campolide.

Por fim arranca, = passo=20 langoroso, len=E7o na cabe=E7a, m=E3os compridas e = finas enfiadas=20 nos bolsos. Segue at=E9 ao fundo da rua, sem destino. = Minutos=20 depois regressa: a mesma indol=EAncia, a mesma = express=E3o=20 perdida, o ru=EDdo das buzinas em fundo. N=E3o tem = destino, n=E3o=20 tem pressa, s=F3 quer apanhar ar, sair por momentos da = casa=20 infecta e s=F3rdida onde, juntamente com a filha, a = embaixada a=20 "depositou".
Ces=E1ria, 45 anos, natural de S=E3o = Tom=E9 e=20 Pr=EDncipe, =E9 apenas um dos inquilinos do pr=E9dio = n.=BA 183 da=20 Avenida Marqu=EAs da Fronteira. Com ela vivem mais 24 = pessoas,=20 quase todas cabo-verdianas, boa parte com = cancro.

Na=20 entrada do edif=EDcio, ao ser interpelada, a mulher = assusta-se.=20 Diz que n=E3o =E9 a pessoa certa "para falar" das = condi=E7=F5es do=20 alojamento - e fixa o olhar num homem de express=E3o = grave ao=20 seu lado, funcion=E1rio do senhorio da resid=EAncia. = "Eu n=E3o sei=20 nada", responde. A declara=E7=E3o parece sossegar o = indiv=EDduo =E0=20 escuta, que acaba por se afastar. Nesse momento, a = mulher=20 resolve mudar de atitude.

Contar a situa=E7=E3o = a toda a=20 gente

Num repente, sobe as escadas de forma = decidida,=20 indiferente aos degraus de madeira, velhos e = abaulados,=20 cobertos de len=E7os de papel, latas de refrigerantes, = beatas e=20 pacotes de batata frita. "Venha, venha", indica. Ao = segundo=20 lan=E7o, entra pela porta escancarada do primeiro = andar, por=20 onde soam ritmos sintetizados de m=FAsica pop africana = misturados com mornas cabo-verdianas. "Pode j=E1 ter = uma ideia=20 do que aqui se passa", diz, aceitando agora revelar = tudo, "p=F4r=20 toda a gente a contar a sua situa=E7=E3o".

Os = quartos=20 sucedem-se ao longo do corredor, numerados. O de = Ces=E1ria =E9 o=20 segundo, do lado direito. "Veja isto: =E9 a minha = filha. Tem=20 encefalia." Prostrada de costas numa cama imunda, = S=F3nia olha=20 os intrusos, a cabe=E7a inchada, desproporcional ao = corpo=20 paralisado de seis anos de idade. A presen=E7a da = crian=E7a quase=20 passa despercebida no espa=E7o ex=EDguo, cheio de = roupas=20 amontoadas e lixo, caixas de medicamentos e fraldas = usadas.=20 Ces=E1ria justifica o cheiro a excrementos - o ar = absolutamente=20 irrespir=E1vel. "N=E3o posso estar sempre a limpar-lhe = o coc=F3 e a=20 mudar-lhe a roupa", alega.

A resid=EAncia =E9 = um=20 mostru=E1rio de horrores, as paredes esventradas e = enegrecidas,=20 cabos pendurados ao longo dos corredores escuros. = Pontas de=20 fios el=E9ctricos junto a um estendal = interior.

No meio=20 da cozinha, duas botijas de g=E1s fazem temer o pior. = Os canos=20 que ligam ao esquentador est=E3o velhos e quebrados. = Basta lavar=20 dois copos de =E1gua para se perceber as fugas e o = risco de=20 explos=E3o. Como se n=E3o bastasse, h=E1 = resist=EAncias de aquecedores=20 espalhadas pela habita=E7=E3o e alguns inquilinos = fazem as=20 refei=E7=F5es nos quartos, usando bicos de campismo.=20

Medos, mis=E9rias, doen=E7as e = lamentos

Os=20 residentes dos outros andares do pr=E9dio centen=E1rio = j=E1=20 detectaram o perigo e receiam pela vida. "Qualquer dia = acontece uma trag=E9dia. Quando era um lar, veio c=E1 = a inspec=E7=E3o=20 e mandou fech=E1-lo. Mas agora ningu=E9m parece = importar-se com=20 isto", alerta um vizinho, indignado. "N=E3o compreendo = como=20 deixam que se tratem assim as pessoas, em Portugal, no = s=E9culo=20 XXI."

A casa est=E1, tamb=E9m, muito longe de = garantir o=20 m=EDnimo de condi=E7=F5es de salubridade e conforto, = tanto mais=20 albergando doentes fragilizados do ponto de vista = f=EDsico e=20 emocional. Em qualquer ponto sente-se frio, humidade,=20 correntes de ar. A janela da =FAnica casa de banho = est=E1 rachada.=20 E o mesmo acontece nalguns quartos, onde as portadas = para o=20 exterior revelam frestas invernais. Pior: a porta do=20 apartamento e a porta do pr=E9dio, ambas empenadas e = com as=20 fechaduras avariadas, est=E3o sempre abertas - = garantem os=20 inquilinos.

"J=E1 apanhei aqui angina de = peito", garante=20 F=E1tima, 30 anos, sentada sobre a cama, almo=E7ando = peixe cozido=20 com legumes. A sua mobilidade =E9 muito reduzida: um = tumor=20 obrigou =E0 remo=E7=E3o da parte inferior da perna. = "Os m=E9dicos=20 fizeram uma cirurgia no coto e agora estou a aguardar = que=20 acabem a pr=F3tese", afirma, acrescentando. "Ningu=E9m = se importa=20 connosco. Tratam-nos como animais. H=E1 pouco tempo = estivemos=20 sem esquentador durante tr=EAs dias. Queixei-me =E0 = empregada do=20 senhorio, mas ainda fui ofendida", diz. "Estamos = completamente=20 abandonados. N=F3s =E9 que temos que ir comprar a = comida, =E9 que=20 cozinhamos, =E9 que fazemos a limpeza dos = quartos."

Na=20 sala de conv=EDvio, nome pomposo para uma divis=E3o = com dois sof=E1s=20 cavos e sujos, os outros moradores do apartamento = v=E3o-se=20 acercando e adicionando lamentos. A uma dezena de = mulheres=20 foram diagnosticados cancros no =FAtero e na mama; os = homens=20 sofrem quase todos de insufici=EAncia renal ou = "problemas na=20 uretra"; uma crian=E7a est=E1 a ser "tratada ao = cora=E7=E3o e outra =E0=20 bexiga".

Uma cabo-verdiana, acabada de chegar = =E0=20 resid=EAncia, p=F5e o problema nestes termos: "N=F3s = viemos para ser=20 tratados, n=E3o para ficarmos ainda mais doentes. = Fomos=20 enganados. Na viagem para aqui, disseram-me que esta = pens=E3o=20 at=E9 era das melhores."

"Sentimos os ratos a=20 passarem-nos por cima"

O som =E9 tenebroso. Na = entrada do=20 edif=EDcio da Rua de S=E3o Paulo, ao Cais do Sodr=E9, = ouve-se o=20 barulho regular de um pau a bater na madeira - um = tum-tum que=20 se aproxima lentamente. Ezequiel, vinte e tal anos, = uma=20 pr=F3tese na perna esquerda, demora v=E1rios minutos a = descer as=20 escadas dos tr=EAs intermin=E1veis pisos do edif=EDcio = velho.
Vem=20 do =FAltimo andar, onde fica outra das casas = arrendadas =E0=20 embaixada de Cabo Verde - e onde vivem mais cerca de = 30=20 pessoas, a maioria apertadas em quartos com tr=EAs = camas. Aqui,=20 os corredores s=E3o mais largos e arejados, mas quando = se olha=20 ao pormenor, est=E3o l=E1 as mesmas marcas da = degrada=E7=E3o: os=20 mesmos riscos sanit=E1rios e de seguran=E7a, as mesmas = hist=F3rias=20 tristes, o mesmo abandono.
Armando, 25 anos, = reside na=20 casa h=E1 tr=EAs anos. Chegou de urg=EAncia =E0s = 02h00, ao aeroporto=20 de Lisboa, e foi levado de imediato para o Hospital de = S.=20 Francisco Xavier. Depois de uma interven=E7=E3o, nessa = mesma=20 noite, ainda com uma alg=E1lia, meteram-no no = apartamento da Rua=20 de S=E3o Paulo. "N=E3o consegui dormir um minuto. = Chorei a noite=20 toda", recorda o rapaz.

O seu quarto est=E1 = enlameado e=20 frio, o colch=E3o destapado. No tecto, sobre a porta, = v=EAem-se=20 duas aranhas grossas, raras na cidade - nada que = atemorize o=20 jovem; ao lado, marcas pretas de insectos esmagados. = "N=E3o s=E3o=20 de melgas. S=E3o de baratas", explica Armando. =

Na=20 divis=E3o em frente, Maria, uma mulher forte, de = len=E7o na=20 cabe=E7a, voz sumida por causa de um tumor que lhe = incha a=20 garganta, aduz: "S=F3 temos esta c=F3moda para tr=EAs = pessoas. E n=E3o=20 podemos p=F4r l=E1 nada, porque ela est=E1 cheia de = baratas. Quer=20 v=EA-las a saltar?", diz, batendo na mob=EDlia. =
Como Armando,=20 tamb=E9m Maria chorou quando se viu ali.
Acontece = a todos. =C9=20 uma esp=E9cie de ritual de inicia=E7=E3o. =C0 chegada = a Portugal tudo=20 parece bater certo: como combinado, o funcion=E1rio da = embaixada=20 vai esper=E1-los ao aeroporto de Lisboa; mas, depois, = s=E3o=20 despejados num dos apartamentos da cidade. E ningu=E9m = sabe ao=20 que vai.

Ningu=E9m est=E1 preparado para um = andar num=20 pr=E9dio prec=E1rio, com pessoas marcadas pela morte = prematura que=20 se fecham nos seus quartos - "cada um por si", cada um = demasiado ocupado com a sua = infelicidade.

Naide, 44=20 anos, apenas h=E1 duas semanas em Portugal, todos os = dias se=20 deixa cair num pranto, suspensa por um diagn=F3stico = que lhe=20 pode ser fatal. Sofre da doen=E7a e sofre de = solid=E3o. O cart=E3o=20 de telefone, que comprou =E0 chegada, esgotou-se logo = na=20 primeira semana; e h=E1 v=E1rios dias que n=E3o tem o = conforto nem=20 do marido, nem dos cinco filhos, todos em S. = Vicente.

O=20 seu quarto =E9 dos mais limpos e arrumados. Alguma = "porcaria",=20 no entanto, agarrou-se ao soalho, ganhou relevo,=20 solidificou-se, dir-se-ia que se transformou em = soalho.=20 "Fartei-me de limpar ali naquele canto: lavei, lavei.=20 Imposs=EDvel. N=E3o sai", indica a mulher, sem quatro = dentes da=20 frente. "Viemos de Cabo Verde, mas l=E1 n=E3o vivemos = assim. L=E1,=20 n=E3o estamos deitadas e sentimos os ratos a = passarem-nos por=20 cima, como aqui."

Sentadas na cozinha, = apanhando o sol=20 matinal que entra pela janela do lado do rio Tejo, ao = fundo,=20 tr=EAs mulheres discorrem sobre a vida enquanto = preparam o=20 almo=E7o. Como Naide, t=EAm todas falhas de dentes, o = que lhes=20 causa um inc=F3modo confrangedor. Envergonhadas da sua = apar=EAncia, tentam manter a boca fechada ou fazem = esgares para=20 tapar os maxilares com os l=E1bios.

Uma delas = tempera=20 cavala com louro e alho, "para fritar". As restantes = esperam=20 que um dos dois fog=F5es velhos fique dispon=EDvel. = "Aqui, at=E9=20 tivemos que comprar os tachos e os talheres. N=E3o nos = d=E3o o que=20 quer que seja. Queremos roupa para a cama e tamb=E9m = n=E3o h=E1",=20 denuncia Concei=E7=E3o, educadora infantil em Cabo = Verde, v=EDtima=20 de um cancro no =FAtero, e, mais recentemente, de uma = infec=E7=E3o=20 urin=E1ria.

Numa outra divis=E3o da = resid=EAncia da Rua de S.=20 Paulo, Cec=EDlia est=E1 a lavar roupa =E0 m=E3o numa = banheira de beb=E9=20 colocada sobre a cama. Nas costas carrega Teresa, de = um ano; o=20 beb=E9, umas tran=E7as espigadas, n=E3o acusa o drama = familiar,=20 sorrindo efusivamente daquele balan=E7o do corpo = esfregando as=20 meias. "A m=E1quina de lavar avariou-se", adianta = Cec=EDlia,=20 colocando mais uma pe=E7a no balde.

A outra = filha, Rosa,=20 uns seis anos, mant=E9m-se distante, intrigada com a = visita.=20 "Tem problemas nos rins", diz a mulher. O desmazelo do = quarto=20 - lixo no ch=E3o, roupa por todo o lado - exp=F5e a = condi=E7=E3o=20 actual da fam=EDlia: a situa=E7=E3o est=E1 = descontrolada. Cec=EDlia n=E3o=20 consegue, com os meios que tem, com os 50 euros que a=20 embaixada lhe d=E1, tratar da beb=E9 irrequieta e = en=E9rgica, levar=20 Rosa ao hospital e, ao mesmo tempo, providenciar o = asseio e a=20 organiza=E7=E3o daquele espa=E7o apertado.

A = solid=E3o de=20 S=F3nia

Numa segunda visita ao apartamento da = Avenida=20 Marqu=EAs da Fronteira, a casa encontrava-se num = sil=EAncio=20 pesado. S=F3 o som, baixinho, de um r=E1dio, por = detr=E1s de uma=20 porta. Na cozinha, uma rapariga recusava, desta vez, = cooperar:=20 j=E1 n=E3o quer denunciar o que quer que seja; diz que = tem medo de=20 repres=E1lias; que daqui a pouco tempo os m=E9dicos = dar=E3o alta ao=20 filho e regressar=E1 a Cabo Verde.

Nos quartos, = por volta=20 do meio-dia, muitos dormiam: =E9 uma forma de = esquecerem as=20 condi=E7=F5es em que vivem, de passarem o tempo, de = esquecerem os=20 outros. S=F3 S=F3nia, a menina com encefalia, parece = disposta a=20 comunicar. Os seus sons, no entanto, caem no vazio. = "Nem me=20 lembro que ela existe", admitiria um residente. =

A=20 crian=E7a passa parte do dia fechada no quarto, = sozinha, v=EDtima=20 f=E1cil das pragas da casa. E ningu=E9m parece ter = energia ou=20 vontade de lhe fazer companhia quando a m=E3e se = ausenta para ir=20 comprar comida ou para ir =E0 embaixada, como foi o = caso,=20 naquele dia.

Com a porta do quarto fechada, = deitada de=20 costas, os olhos muito abertos, a menina s=F3 contava = com a=20 ternura das bonecas alinhadas ao seu lado. De in=EDcio = assustada, arfando, rapidamente no entanto come=E7ou a = interagir, sorrindo, emitindo sons, contente com a = companhia=20 inesperada.

A dada altura, esfor=E7ou-se mesmo = por=20 agarrar um brinquedo a poucos cent=EDmetros da m=E3o = direita,=20 enquanto sobre a cabe=E7a duas baratas passavam = tranquilamente.=20 A m=E3e deixara alimento suficiente aos bichos = espalhados pelo=20 quarto: um copo de leite com uma palhinha, um pacote = de=20 bolachas aberto, outro de batatas, e um prato de = pl=E1stico com=20 um resto de arroz de feij=E3o.
S=F3nia dava um = exemplo=20 tremendo de sobreviv=EAncia. Continuando a sorrir na = casa=20 decadente.
Todos os nomes usados nesta reportagem = s=E3o=20 fict=EDcios

Embaixada=20 admite impot=EAncia e nota que "os recursos de Cabo = Verde s=E3o o=20 que s=E3o"
Encarregado
de neg=F3cios sublinha = que o pa=EDs=20 "est=E1 a tentar dar o m=E1ximo"

O problema existe, mas n=E3o = h=E1 nada que=20 se possa fazer para acabar com ele. =C9 assim que = Eduardo Silva,=20 respons=E1vel da embaixada de Cabo Verde em Lisboa, = comenta a=20 situa=E7=E3o dos doentes transferidos para Portugal. =
O=20 encarregado de neg=F3cios - que assumiu as fun=E7=F5es = de embaixador=20 com a sa=EDda de On=E9simo Silveira, que ir=E1 = candidatar-se =E0s=20 elei=E7=F5es de Cabo Verde, dentro de cerca de dois = meses -=20 sublinha que j=E1 est=E1 a ser feito um esfor=E7o = assinal=E1vel para=20 se conseguir enviar 300 pessoas anualmente para=20 Portugal.

"O peso destas situa=E7=F5es nas = finan=E7as=20 p=FAblicas na =E1rea da sa=FAde, tendo em conta os = meios limitados=20 do pa=EDs, j=E1 =E9 muito elevado", considerou. = "Trata-se de um=20 buraco para o Minist=E9rio da Sa=FAde." =

Eduardo Silva=20 adiantou que as pens=F5es que albergam os doentes = s=E3o=20 alternativas de alojamento de baixo custo para quem = n=E3o=20 consegue garantir resid=EAncia pelos seus meios. Para = al=E9m das=20 pens=F5es em Campolide e na Rua de S=E3o Paulo, existe = uma outra,=20 no Largo do Cam=F5es, informou ainda.

Todas = elas -=20 precisou - pertencem ao mesmo propriet=E1rio, com quem = foi=20 celebrado um acordo h=E1 j=E1 alguns anos. Segundo = disse, por=20 pessoa, s=E3o pagos 7,15 euros por dia, um valor que = "n=E3o pode=20 dar garantias de grandes luxos".
Embora estejam = nestas=20 casas mais de 50 pessoas, o diplomata salienta que = s=F3 40 t=EAm=20 um acordo com a embaixada e est=E3o nestes = alojamentos. Isso=20 significa que o encargo anual rondar=E1 os 100 mil = euros. "=C9 uma=20 solu=E7=E3o a baixo pre=E7o", admitiu Eduardo = Silva.

A este=20 montante =E9 contudo preciso adicionar os custos das = passagens=20 a=E9reas, bem como os subs=EDdios de medicamentos (a = embaixada=20 paga 80 por cento do pre=E7o), de alimenta=E7=E3o e de = transporte.=20 Ao todo, em m=E9dia - e em conformidade com o que = est=E1=20 estabelecido no acordo de coopera=E7=E3o na =E1rea da = sa=FAde com o=20 Estado portugu=EAs - 300 cabo-verdianos s=E3o = assistidos nos=20 hospitais portugueses, sendo que alguns dos doentes, = por=20 incapacidade ou por serem menores, t=EAm de ser = acompanhados por=20 familiares.

Portugal, "o melhor = parceiro que=20 se pode ter"

De acordo com o = respons=E1vel da=20 embaixada de Cabo Verde, nunca foi pedido apoio ao = Governo=20 portugu=EAs nesta mat=E9ria, uma vez que Portugal = "j=E1 tem dado uma=20 ajuda valiosa". "S=F3 com o apoio de Portugal temos = conseguido=20 ajudar cabo-verdianos com certas doen=E7as a receber = tratamento.=20 O Estado portugu=EAs =E9 o melhor parceiro que se pode = ter",=20 elogiou.

A =FAnica solu=E7=E3o poss=EDvel, = para o diplomata, =E9=20 passar a depender menos dos cuidados de sa=FAde = externos,=20 melhorando os servi=E7os prestados em Cabo Verde. =
"J=E1=20 form=E1mos na Faculdade de Medicina da Universidade de = Coimbra=20 v=E1rias equipas de m=E9dicos, que poder=E3o j=E1 = estar a trabalhar=20 nos hospitais centrais de Cabo Verde no pr=F3ximo = ano", revelou.=20 A sua esperan=E7a =E9 que, existindo mais recursos = humanos e=20 materiais nesta =E1rea, decorrentes da coopera=E7=E3o = e da=20 colabora=E7=E3o nomeadamente com o Instituto = Portugu=EAs de=20 Oncologia de Lisboa e do Porto, a m=E9dio prazo o = n=FAmero de=20 transfer=EAncias de doentes diminua.

No que = respeita =E0s=20 solu=E7=F5es de curto prazo, a quest=E3o =E9 mais = complicada e a=20 "escolha" continuar=E1 a ser "dram=E1tica" se n=E3o = surgirem outros=20 apoios.

"Ou tentamos que estas pessoas se = curem,=20 passando por este supl=EDcio do alojamento, ou dizemos = que n=E3o=20 temos condi=E7=F5es para as acolher em Portugal e = deixamo-las=20 morrer em Cabo Verde", afirma o diplomata = cabo-verdiano.=20

Subs=EDdios n=E3o=20 est=E3o a ser pagos na = totalidade

V=E1rios dos pacientes = cabo-verdianos=20 queixaram-se de que o compromisso de pagar um = subs=EDdio mensal=20 n=E3o est=E1 a ser cumprido pela embaixada. = Actualmente,=20 referiram, os benefici=E1rios s=F3 recebem metade da = verba=20 definida, situando-se o valor m=E9dio nos 80 euros = mensais. Os=20 cidad=E3os de S=E3o Tom=E9 e Pr=EDncipe, por seu = turno, enfrentam=20 ainda mais dificuldades: recebem 50 euros mensais. = "Quem =E9 que=20 consegue comer com 80 euros por m=EAs?", lamentou um = dos=20 residentes do apartamento da Rua Marqu=EAs da = Fronteira. Para=20 quem est=E1 c=E1 com um filho em tratamento, a = situa=E7=E3o ainda =E9=20 pior, uma vez que s=F3 recebe os 80 euros por m=EAs, = mais 50 por=20 cento do valor do subs=EDdio. Perante a falta de = dinheiro de=20 muitas destas pessoas - "quase todas provenientes de = meios=20 pobres", segundo o encarregado de neg=F3cios da = embaixada de=20 Cabo Verde -, a =FAnica forma de sobreviver em = Portugal =E9=20 trabalhar. Mesmo que para isso tenham de fazer um = esfor=E7o=20 duplo para continuar nos tratamentos. A embaixada = n=E3o tem=20 colocado obst=E1culos a este procedimento. Segundo = explica um=20 doente alojado na Rua de S=E3o Paulo, as condi=E7=F5es = j=E1 foram=20 piores. "Houve anos em que se atrasaram no pagamento = durante=20 v=E1rios meses." Um outro cidad=E3o cabo-verdiano = corrobora esses=20 atrasos. "Em 2003, estive pelo menos uns seis meses = sem=20 receber nada", concretiza. O respons=E1vel da = embaixada de Cabo=20 Verde admite que os subs=EDdios, que variam entre os = 10 e os 15=20 euros di=E1rios, t=EAm s=F3 sido pagos a 50 por cento. = Acrescenta,=20 contudo, que o custo dos medicamentos =E9 reembolsado = em 80 por=20 cento, bem como a totalidade do pre=E7o do passe dos = transportes=20 p=FAblicos.

Propriet=E1rio=20 afirma que "est=E1 tudo bem"

Para o propriet=E1rio das = tr=EAs=20 resid=EAncias que alojam doentes de Cabo Verde (mas = tamb=E9m=20 alguns de S=E3o Tom=E9 e Pr=EDncipe), "est=E1 tudo = bem" com as suas=20 pens=F5es. "Em tempos tivemos um problema com a chuva, = mas isso=20 j=E1 foi resolvido", disse, contactado pelo P=DABLICO. = Conhecido=20 por Nazir, o empres=E1rio garantiu que as casas s=E3o = pens=F5es,=20 devidamente legalizadas, embora o P=DABLICO n=E3o = tenha visto=20 qualquer sinaliza=E7=E3o nesse sentido. "Antigamente = =E9 que eram=20 apartamentos. Agora foram transformados em pens=F5es." = O=20 propriet=E1rio garantiu tamb=E9m que est=E3o a ser = alvo de obras=20 duas casas de banho inactivas na pens=E3o de = Campolide. Na=20 visita que o P=DABLICO fez, no entanto, n=E3o se = vislumbrava=20 qualquer interven=E7=E3o, embora alguns dos residentes = adiantassem=20 que ela havia sido prometida h=E1 algumas semanas. O=20 propriet=E1rio n=E3o quis esclarecer se as = resid=EAncias t=EAm as=20 devidas licen=E7as de habitabilidade e de = explora=E7=E3o.=20

 
Tratamentos = avan=E7am nos=20 hospitais da Praia e do = Mindelo
Director-geral da Sa=FAde diz que j=E1 = se evoluiu=20 nalguns sectores mas que limita=E7=F5es se v=E3o = manter

Um=20 dos respons=E1veis pelos acordos de coopera=E7=E3o na = =E1rea da sa=FAde=20 entre Portugal e Cabo Verde, o director-geral da = Sa=FAde=20 cabo-verdiano Carlos Brito, disse ao P=DABLICO que = est=E1 a ser=20 implementada uma unidade de di=E1lise no hospital = central da=20 Praia e que alguns doentes oncol=F3gicos tamb=E9m = s=E3o a=ED tratados,=20 bem como no hospital central do Mindelo.
Em = conversa=20 telef=F3nica, Carlos Brito afirmou que estes dois = projectos=20 est=E3o a ser desenvolvidos em parceria com o Estado = portugu=EAs.=20 No que respeita =E0 di=E1lise, procedimento destinado = aos=20 pacientes com insufici=EAncias renais, a Pluribus, uma = empresa=20 que opera v=E1rias cl=EDnicas em Portugal e no = estrangeiro, tamb=E9m=20 est=E1 a colaborar com as autoridades cabo-verdianas.=20

Carlos Brito afian=E7a que dentro de = aproximadamente=20 seis meses esta unidade estar=E1 a funcionar, evitando = assim a=20 transfer=EAncia, para Portugal, dos cidad=E3os = v=EDtimas desta=20 doen=E7a.

Imposs=EDvel acompanhar evolu=E7=E3o=20 t=E9cnica

Este respons=E1vel acrescentou = todavia que=20 dificilmente o Governo de Cabo Verde poder=E1 = prescindir do=20 apoio prestado pelo Estado portugu=EAs no tratamento = de certos=20 casos. "O problema =E9 que est=E3o sempre a aparecer = novas=20 t=E9cnicas, novos equipamentos, e n=F3s n=E3o temos = possibilidade de=20 acompanhar essa evolu=E7=E3o. Podemos fazer = quimioterapia, mas n=E3o=20 temos meios para enfrentar todas as situa=E7=F5es",=20 justificou.

O director-geral da Sa=FAde disse = tamb=E9m=20 estar a par dos problemas com o alojamento. "N=F3s = sabemos que=20 h=E1 queixas e temos tentado abordar essa = situa=E7=E3o", disse,=20 aduzindo contudo que a solu=E7=E3o passa, neste = momento, por um=20 maior controlo dos falsos transferidos ou dos que = prolongam=20 por demasiado tempo a sua estadia em Portugal.=20

"Estamos a fazer quatro miss=F5es por ano a = Portugal, de=20 tr=EAs em tr=EAs meses, no sentido de percebermos se o = crit=E9rio=20 que determinou o envio dos doentes se mant=E9m", = referiu,=20 explicando que n=E3o se trata apenas de evitar as = fraudes.=20 "Acontece que nem sempre os colegas portugueses sabem = o que =E9=20 que j=E1 se pode fazer, em termos de tratamento, em = Cabo Verde",=20 exemplificou Carlos Brito.
 
Entidades=20 portuguesas dizem desconhecer situa=E7=F5es de=20 degrada=E7=E3o

Acordos com os PALOP apenas=20 responsabilizam o Minist=E9rio da Sa=FAde quanto aos = cuidados=20 m=E9dicos

Quer o Minist=E9rio do = Trabalho e da=20 Seguran=E7a Social, quer o Alto-Comissariado para a = Imigra=E7=E3o e=20 Minorias =C9tnicas, quer a Santa Casa da = Miseric=F3rdia de Lisboa,=20 afirmaram desconhecer as condi=E7=F5es degradadas em = que os=20 doentes africanos assistidos em Portugal s=E3o = alojados.=20

Estes organismos alertaram para o facto de o = acordo de=20 coopera=E7=E3o na =E1rea da sa=FAde com os pa=EDses = africanos de l=EDngua=20 oficial portuguesa responsabilizar apenas o = Minist=E9rio da=20 Sa=FAde portugu=EAs no que respeita aos cuidados = m=E9dicos e os=20 pa=EDses africanos no que respeita =E0 garantia de = alojamento.=20

Confrontados com o facto de se tratar de um = caso de=20 emerg=EAncia social, o alto-comiss=E1rio para a = Imigra=E7=E3o e=20 Minorias =C9tnicas, Rui Marques, comprometeu-se a = procurar uma=20 solu=E7=E3o, nomeadamente para o caso da crian=E7a com = encefalia, a=20 residir na pens=E3o de Campolide.

O assessor de = imprensa=20 do ministro do Trabalho e da Seguran=E7a Social = afirmou que=20 nunca foi pedido apoio =E0quele minist=E9rio = relativamente ao=20 acolhimento dos doentes africanos.

"N=E3o = conhecemos a=20 situa=E7=E3o", referiu, salientando que =E9 importante = "que ela n=E3o=20 seja escondida" para se poder intervir.

A Santa = Casa da=20 Miseric=F3rdia de Lisboa, por sua vez, que tem tido = algumas=20 interven=E7=F5es nesta mat=E9ria, n=E3o conseguiu = identificar as=20 pens=F5es onde sobretudo os doentes cabo-verdianos = s=E3o alojados=20 pela sua embaixada em Lisboa. O P=DABLICO sabe no = entanto que=20 pelo menos um dos residentes recebe um apoio = monet=E1rio e est=E1=20 registado nos servi=E7os sociais da institui=E7=E3o.=20

Confrontada com esta contradi=E7=E3o, a = assessora de=20 imprensa da Santa Casa admitiu essa ajuda. "N=E3o = encontr=E1mos a=20 sua identifica=E7=E3o, mas ela pode sempre pedir = aux=EDlio", disse=20 Edite Bandos, acrescentando que a Miseric=F3rdia tem = um programa=20 de apoio nesta =E1rea em parceria com o = Alto-Comissariado para a=20 Imigra=E7=E3o e Minorias =C9tnicas.

Artigo publicado no=20 P=FAblico, http://www.publico.pt/







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