

Opinião do
Internista: A outra face da doença “Há circunstâncias
na vida em que a dignidade humana pode exigir grandes sacrifícios, isto é,
heroísmo. Ninguém tem
autoridade moral para exigir do outro um comportamento heróico. Cada um de
nós tem essa obrigação, não porque outros lho peçam ou censurem se o não
fizer, mas porque, as próprias coisas lhos pedem; pede-o sobretudo a
dignidade humana.
A leitura do livro “
Saudades do Danny”, oferta gentil da autora Grace Beatriz, obrigou-me a
horas de introspecção e de reflexão sobre o verdadeiro significado da
vida. Apesar de rotinado na abordagem das doenças oncológicas, confesso
que, não raras vezes, invade-me uma sensação de vazio e de impotência e,
descuidadamente, ainda deixo cair a máscara de tecnocrata, qual protecção
divina que, nós médicos, tanto precisamos nos momentos mais difíceis. Na
verdade, uma coisa é abordar a doença, e outra coisa, muito mais complexa,
é abordar o doente “terminal”. O livro da Grace trouxe-me
à memória muitas interrogações e veio reforçar a minha convicção de que,
apesar das constantes dificuldades, é necessário e urgente pensar-se numa
estratégia que vise minorar o sofrimento dos doentes cabo-verdianos, tanto
em Cabo Verde como em Portugal. Sem querer criticar quem quer que seja, a
minha preocupação é única e exclusivamente trocar ideias com quem, como a
Grace, se preocupa com o sofrimento dos outros e, de forma prática e
desinteressada, se oferece para ajudar na procura de uma solução para este
grave problema. Sou cabo-verdiano, médico de Oncologia em Almada,
especialista em Medicina Interna, membro da OMEC (Organização Médica
Cabo-verdiana) que já se disponibilizou, por diversas vezes, a colaborar
com Cabo Verde e conheço a história do Danny através de uma Cabo-verdiana,
“anónima”, que vive na Holanda. Não é feio? A evacuação de doentes
para Portugal não poderia ser uma estratégia comum entre a junta Médica
cabo-verdiana e a OMEC que serviria de ponte, junto das autoridades
portuguesas? (fiz esta proposta aos elementos da junta médica
cabo-verdiana há mais de um ano). Quando é que o Ministério da Saúde de
Cabo Verde pretende receber a OMEC e ouvir as suas propostas,
nomeadamente, em relação ao envio de especialistas para realização
periódica de consultas de especialidade em Cabo Verde? É preciso lembrar
que o problema dos doentes começa em Cabo Verde, diagnóstico tardio,
carência de medicamentos e burocracia portuguesa que atrasa a evacuação
dos mesmos. A história do Danny,
Grace, infelizmente, é a de muitos cabo-verdianos em Portugal. É a do dr.
Miguel que após uma evacuação tardia e meses de sofrimento em Lisboa,
regressou para morrer perto da família e dos amigos. Morreu e levou com
ele o sonho de, um dia, retribuir, em Cabo Verde, a amizade e a
solidariedade que recebeu em Portugal. É também a história de um jovem de
Santa Catarina que aos trinta e dois anos viu-se confrontado com o
diagnóstico de Carcinoma Hepato-celular (tumor do fígado) e que morreu em
Lisboa, sem se despedir dos filhos, seu último desejo. Diamantino, um
jovem de trinta e poucos anos, andava a perder peso e com anemia. Após
várias transfusões no HAN e perante a indecisão da junta médica, a família
mobilizou os poucos recursos para que o jovem tentasse a cura no Senegal.
Desiludido voltou para Cabo Verde e sem recursos para viajar para Europa,
resignou-se, a morte parecia inevitável. Estava no consultório quando a
minha irmã telefonou, os amigos contribuíram para a viagem, o jovem
viajava no dia seguinte e precisaria de apoio em Portugal. Estava de
Urgência Interna naquele fim-de-semana, portanto, recebi-o logo no
Hospital Garcia de Orta. A anemia estava estampada nas suas mucosas (6
gramas de hemoglobina) e a palpação daquele abdómen saliente era
sugestiva, neoplasia do cólon. Diamantino teve
sorte, chegou a tempo, não havia metástases à distância. Foi operado, fez
quimioterapia adjuvante e hoje vive feliz, em companhia da família. Cabo
Verde assumiu, a posteriori, os custos do tratamento e paga as viagens à
Portugal para as consultas de follow-up (louvável). Não nos esqueçamos dos insuficientes renais crónicos.
Condenados ao tratamento de substituição da função renal (hemodiálise),
perto de uma centena de cabo-verdianos vivem em Portugal, longe da família
e dos amigos, alguns em péssimas condições. Além dos custos com os
tratamentos não podemos esquecer que, muitas vezes, são mãos de obra
qualificadas que o país perde. Vivi diariamente, durante cinco anos, o
drama de homens que deixaram a mulher e os filhos em Cabo Verde, sem
esperança de um dia voltar a vê-los. Sim, Grace, é muito triste ouvir as
suas lamentações e sinto-me culpado quando perguntam, Sr. dr. para quando
a diálise em Cabo Verde? A
solução ideal seria, sem dúvida, o país formar médicos especialistas em
todas as áreas e construir hospitais modernos munidos da mais perfeita
tecnologia. Sejamos realistas! Mas,
por outro lado, não podemos cruzar os braços e esperar pela misericórdia
da China ou do Luxemburgo. Temos que provar que somos capazes, fazer
projectos, mostrar que conhecemos a realidade do nosso país e assumir com
determinação que a política de saúde em Cabo Verde terá que ser feita
pelos cabo-verdianos. Longe de possuir a verdade suprema, nem é minha
intenção ferir susceptibilidades, pretendo, simplesmente, dar voz à quem
não consegue fazer-se ouvir e, defender a saúde em qualquer circunstância.
É bom
que os intelectuais, quadros da diáspora, e não só, pessoas disponíveis,
se reúnam e discutam temas importantes para o país, mas, paralelamente,
nós Grace, gente anónima, no terreno, precisamos fazer algo em prol do
país e da nossa gente. Parafraseando Madre Teresa de Calcutá, não podemos
dar-nos ao luxo da complexidade, pois, enquanto eles idealizam, morrem
pessoas no nosso “pequeno Calcutá”.
Não
queria terminar esta nossa conversa, Grace, sem uma palavra aos jovens que
morrem precocemente, ou ficam incapacitados, todos os dias, vítimas de
doenças cardiovasculares, por falta de recursos humanos e materiais nos
nossos hospitais. É tempo de conversarmos, cabo-verdianos de todo o mundo,
sem complexos, cada um com a sua experiência, pensemos Cabo Verde.
*Assistente
Hospitalar
Por Frederico Sanches
A história de
todas as culturas está cheia de gestos exemplares deste tipo, fora do
“normal estatístico”. Mas estas escolhas podem surgir na vida de todos os
homens, em circunstâncias “normais”. Juan Luís Lorda
Especialista em Medicina Interna
fems@netcabo.pt
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A Semana (04-05-2006)