

“Danny”, memórias de um leucémico...
UM LIVRO CABO-VERDIANO QUE
É DOLOROSO DEPOIMENTO
Danny” é o lacónico título do
livro, de cerca de 60 páginas, que será dentro de
semanas publicado em S.
Vicente. A autora, Grace Beatrix, uma mindelense
radicada na Holanda há mais
de 30 anos, fez-se deslocar à sua ilha para prover
à sua edição, já que
nenhuma casa se interessou pela publicação deste singular
livro dentro da
literatura cabo-verdiana.
A história pode reduzir-se à luta de um jovem e inteligente estudante
de 20
anos contra uma doença hoje silenciada, mas que continua a matar e a
nos
consumir com a mesma fúria de ontem – o cancro do sangue. O livro,
escrito em
forma de diário, relata os sofrimentos e angústias de Danny, desde
o dia em que deu entrada no Hospital de S. Vicente e termina num hospital de
Lisboa, a 5 de Dezembro de 2003, duas horas depois do registo da última conversa
com o doente.
Será a própria autora a fazer a apresentação da obra, mas
Graciete, como é conhecida no meio mindelense, permitiu-nos que a antecipássemos
para os nossos leitores: “Danny, o livro que escrevi sobre um rapaz de 20 anos
que morreu de leucemia em Dezembro passado, é um livro cheio de emoções, onde
cada palavra tem um significado. Descrevi os sofrimentos do Danny para que ele
os pudesse ler quando estivesse bom ( como tínhamos fé), mas, infelizmente, as
coisas correram doutra forma”. Danny faleceu dois dias depois de Graciete ter
conseguido das autoridades que o doente pudesse continuar os tratamentos na
Holanda.
Sempre que a doença lhe permitia, o jovem cabo-verdiano ia passando
para o papel o que lhe vinha à memória, pois as repetidas e dolorosas
quimioterapias faziam-no esquecer muita coisa. Parte do livro é, aliás, formado
pelos próprios textos que o Danny ia escrevendo para passar o tempo e entreter a
solidão hospitalar. Ficamos assim a saber como recebeu os resultados médicos:
“Na quinta-feira, a médica me chamou ao seu gabinete para falar, e foi lá que
ela me disse que tipo de doença eu tinha e que tratamentos eu teria de fazer,
era uma LEUCEMIA AGUDA, deu vontade naquela hora de chorar mas não o fiz, apesar
de, de alguma forma, já estar um pouco à espera, mas eu nunca queria acreditar
que aquilo estava a acontecer comigo”. Segue-se a descrição da transferência
para a UTM, a unidade de transplante de medula, onde seria submetido ao
transplante e a angustiosa espera por um doador compatível. Mas a operação não
traz os resultados esperados.
“Durante dois meses e pouco continuei a fazer
análises e estava indo tudo bem mas, nestes últimos tempos, as plaquetas têm
vindo a diminuir e os médicos para saberem o que é que se está passando, porquê
as plaquetas continuam a descer muito, foram fazer-me outro medulograma e a
minha medula já não estava tão boa, estava com o aspecto quase igual à minha
medula antes do transplante, ou seja, aconteceu-me o pior”.
Danny tem de
recomeçar tudo de novo: quimioterapias e mais quimioterapias. “Talvez em
Dezembro faça outro transplante e por isso ainda vou ficando por aqui, por mais
que me custe e as saudades me apertem”, escreve numa das últimas páginas que nos
deixou. Seu corpo debilitado não resiste à desumana terapia e, poucos dias antes
da ansiada operação, morre algumas horas depois da derradeira conversa com
Graciete.
A autora irá
aproveitar a sua estada em Cabo Verde para chamar a atenção das pessoas para a
necessidade de acções de prevenção contra o cancro, mas também de apoio aos
portadores desta doença – tanto do Governo, na melhoria das condições a que os
doentes cabo-verdianos estão sujeitos em Portugal, como da Embaixada de
Portugal, na facilitação de visto aos familiares, pois Danny morreu com vontade
de ver seus familiares que não puderam visitá-lo por não terem conseguido o
necessário visto, lamenta Graciete.
v
Expresso das Ilhas (30-11-2004)